Jennifer Ferreira, 29 anos, está há dois anos morando nas ruas, após conflitos familiares. Na noite desta segunda-feira, 2, ela procurou o Espaço Acolher -Serviço de Acolhimento Noturno Desembargador Paulo Frota, inaugurado pela Prefeitura de Belém na última semana, em busca de alimentação, banho e descanso.
“Na rua a gente não dorme de verdade, só cochila com medo. Aqui eu consegui tomar um banho tranquilo, comer e descansar. Isso muda tudo, dá força para continuar tentando”, contou a usuária do Espaço.
Instalado na rua Aristides Lobo, 290, o Espaço Acolher tem transformado a realidade de pessoas em situação de rua na capital paraense. Instalado na rua Aristides Lobo, 290, o local inaugurado pela Prefeitura de Belém, no bairro da Campina, na última quinta-feira (26), oferece acolhimento noturno com estrutura adequada, alimentação e atendimento técnico especializado, garantindo mais dignidade e segurança a quem vive em vulnerabilidade social.
A iniciativa da Prefeitura de Belém é coordenada por meio da Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação (Sezel), com gestão da Fundação Papa João XXIII (Funpapa), e faz parte da política pública voltada à população em situação de rua.
Funcionamento e estrutura
O Espaço Acolher dispõe de 50 vagas por noite, distribuídas em 16 quartos, sendo dois adaptados para pessoas com deficiência (PcD). Cada quarto possui quatro camas de solteiro — dois leitos nos quartos adaptados — e é climatizado. O local conta ainda com lavanderia equipada com máquina de lavar e secar, refeitório, banheiros com materiais de higiene e espaços destinados à guarda de pertences pessoais e utensílios de trabalho.
O serviço funciona diariamente, das 19h às 7h, inclusive aos fins de semana e feriados. O acesso é direto, em sistema de porta aberta, até o limite da capacidade. Têm prioridade mulheres, famílias com crianças, idosos, pessoas com deficiência e transexuais.
Além do pernoite, são oferecidas 100 refeições por dia — 50 jantares e 50 cafés da manhã —, atendimento psicossocial, apoio à saúde por meio das equipes do Consultório na Rua, atividades socioeducativas e culturais, além da elaboração do Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) para promover a reinserção social dos usuários.
A equipe técnica é composta por coordenador, assistentes sociais, psicólogos, pedagogos, intérprete, educadores sociais, cuidadores, oficineiros, arte-educadores, agentes administrativos, profissionais de serviços gerais e manipuladores de alimentos.
A presidente da Funpapa, Edna Gomes, explica que o acolhimento começa com uma escuta qualificada e uma triagem técnica detalhada.
“Assim que a pessoa chega, é feita uma triagem técnica e a identificação do usuário, para que possamos compreender quem é esse público que vai receber o atendimento. Nesse momento, verificamos como está a questão do uso abusivo de álcool e outras drogas, se é da região, se há demanda de saúde. Quando necessário, acionamos o suporte de outros órgãos para garantir um acompanhamento adequado”, destacou a presidente da Funpapa.
Ela reforça que o atendimento segue um fluxo organizado e humanizado. “Após a triagem, fazemos o encaminhamento para a higiene pessoal, com o banho, depois para a alimentação e, em seguida, para o atendimento psicológico e atividades de vida prática e diária, até o horário de dormir. Eles passam a noite conosco, jantam, tomam café da manhã e depois são liberados, pois contamos com outros equipamentos que realizam o atendimento durante o dia, como o Centro POP e o CREAS”, completou.
Refeições pensadas com cuidado e empatia
No refeitório, o cuidado com a alimentação é prioridade. A responsável pelo espaço, a nutricionista Vânia Margalho, explica que o preparo das refeições segue critérios nutricionais e sanitários rigorosos.
“Nós pensamos cada refeição para garantir que essas pessoas tenham uma alimentação equilibrada e de qualidade. Muitos chegam aqui após um dia inteiro sem comer. O jantar precisa ser reforçado, nutritivo e feito com respeito”, afirmou.
O cardápio é balanceado, planejado para suprir as necessidades nutricionais de um adulto. No desjejum, são oferecidos dois pães, 300 ml de café com leite e uma fatia de fruta ou uma fruta inteira. Já o jantar conta com arroz, feijão, macarrão, salada crua ou cozida e um prato proteico, acompanhado também de salada.
O cozinheiro Carlos Freitas, que atua no preparo diário dos alimentos, conta que a rotina começa ainda à tarde.
“A gente começa a preparar tudo com antecedência. Higienizamos os alimentos, organizamos as porções e cuidamos para que a comida esteja fresca e bem temperada. Eu trabalho com carinho, porque sei que, para muitos, essa pode ser a única refeição quente do dia”, relatou o cozinheiro do Espaço Acolher.
Ele destaca que a equipe de manipuladores de alimentos segue protocolos de segurança alimentar e utiliza equipamentos adequados para garantir qualidade e higiene.
Histórias de recomeço
Entre as pessoas acolhidas estão mulheres trans que encontraram no Espaço uma oportunidade de cuidado e respeito.
Yasmin Costa, 23 anos, vive há cinco anos em situação de rua após conflitos familiares motivados por sua identidade de gênero. Emocionada, ela conta que decidiu procurar o Espaço para se alimentar e realizar o cadastramento.
“Eu passei muito tempo me sentindo sozinha e invisível. Quando soube daqui, resolvi tentar. Hoje eu consegui jantar, tomei banho e fiz meu cadastro. Parece algo simples, mas para mim é um recomeço. É a primeira vez, em muito tempo, que sinto que alguém está olhando para mim com respeito”, disse a usuária do Espaço Acolher.
Sophia Brito, 24 anos, vive há três anos em situação de rua. Após a morte da mãe, ela conta que o pai não aceitou sua identidade como mulher trans, e desde então precisou sobreviver sozinha. No espaço, busca acolhimento e apoio psicológico.
“Eu perdi minha mãe, que era quem me apoiava. Depois disso, fiquei sem chão. Aqui eu estou encontrando apoio psicológico e um pouco de esperança. Poder me alimentar e ser chamada pelo meu nome já faz uma diferença enorme”, afirmou a usuária do Espaço.
Política pública de inclusão
A escolha do bairro da Campina para sediar o Espaço Acolher foi estratégica,considerando a concentração de pessoas em situação de rua na região central da cidade. A proposta é assegurar proteção social, reduzir riscos e oferecer acompanhamento contínuo, com foco na saída definitiva das ruas.
Mais do que um local de pernoite, o espaço se consolida como um ponto de acolhimento humanizado, especialmente para pessoas trans e outras populações vulnerabilizadas, reafirmando o compromisso do município com políticas públicas de inclusão, respeito e dignidade.
Fonte: Agência Pará




